Este artigo de opinião discute as mudanças profundas na dinâmica da informação nas últimas décadas e analisa como determinadas práticas históricas da Igreja, antes eficazes em seu contexto, tornaram-se insuficientes diante da transformação digital. Defende-se que a antiga estratégia de proibição perdeu eficácia e a igreja evangélica precisa ser preparar melhor para entender e combater ideologias progressistas; A igreja errou por subestimar a força das ideias engendradas pelo inimigo e seu poder de persuasão no imaginário dos fiéis.
Introdução
A afirmação “A Igreja errou” não pretende atribuir culpa aos cristãos do passado ou do presente. Ao contrário, reconhece-se que cada geração agiu conforme as circunstâncias e recursos que possuía. O ponto central é outro: não percebemos com clareza as profundas transformações que o mundo contemporâneo experimenta, especialmente no que diz respeito ao acesso, circulação e consumo de informação.
Para aqueles nascidos antes da década de 1990 — verdadeiros “sobreviventes da Idade da Pedra” tecnológica — a diferença é evidente. A informação era rara, cara e difícil de acessar. Vivíamos sem celulares, comprávamos jornais na banca, dependíamos de enciclopédias, bibliotecas, livrarias e sebos. Informar-se exigia tempo, deslocamento e método.
A partir desse cenário inicial, apresentamos como a mudança no fluxo informacional alterou radicalmente a maneira como ideias circulam e por que isso exige uma nova postura da Igreja.
A Transformação da Informação
Com o advento da internet, o mundo passou por uma democratização sem precedentes do conhecimento. Pessoas comuns, antes limitadas por barreiras geográficas e econômicas, passaram a acessar acervos inteiros de instituições do mundo todo. A informação deixou de ser um bem de luxo e se tornou commodity — disponível em segundos, a poucos cliques.
Nos últimos anos, essa transformação ganhou novos contornos: dados se tornaram moeda, e a informação converteu-se principalmente em entretenimento. O consumo passivo passou a substituir a busca ativa.
No passado, pais educavam os filhos restringindo o acesso à informação, e isso era possível devido à sua escassez. Assim também procedeu a Igreja. Proibir era simples e eficaz: não ver televisão, não frequentar certos espaços, não participar de determinadas atividades. Essas proibições, embora imperfeitas, funcionavam dentro de um contexto onde a circulação de ideias dependia de ambientes físicos.
A Tática da Proibição e Seus Limites
No século XX, escolas e universidades eram os grandes espaços de contestação à fé cristã. As ideias contrárias ao cristianismo circulavam ali, e muitos cristãos evitavam esses ambientes — ou eram orientados a evitá-los. Dentro daquele contexto, isso fazia sentido: impedir o acesso ao local significava impedir o acesso à informação.
Porém, essa estratégia deixou um legado problemático: ficamos intelectualmente despreparados. Não estudamos as ideias que nos atacavam. Não lemos os livros que difundiam novos ideais. Quando tais ideias ganharam alcance social, chamamos o debate de “coisa do diabo” — e, no caso do debate político, “do diabo-mor”.
As ideologias progressistas surgiram na sociedade, ganharam o debate público, foram ensinados nas escolas e invadiram nossas casas de maneira sorrateira – o inimigo é especialista nisso. Sem saber, evangélicos, inclusive líderes e pastores, começaram a defender estas ideias, a citar princípios progressistas, feministas, gayzista e outros sem saber exatamente o que estavam dizendo. Dentro das igrejas, em sermões e programações, fomos invadidos por ideias que desconhecíamos.
Proibir funcionou, por um lado, mas alienou por outro.
O erro não foi a proibição em si, mas a ausência de formação, de explicação, de preparo. Não ensinamos os porquês; apenas proibimos.
A Revolução da Internet e a Quebra da Barreira
Ninguém previu que a escassez informacional daria lugar a um excesso quase incontrolável.
A internet globalizou o acesso. As redes sociais personalizaram esse acesso. Hoje, não buscamos informação: ela nos encontra, empurrada por algoritmos que detectam padrões de consumo e nos mantêm diante da tela.
Assim, ideias antes confinadas a ambientes proibidos para cristãos agora entram pela porta da frente — ou melhor, pela tela do celular. Chegam embaladas em vídeos curtos, memes, slogans e narrativas emocionalmente sedutoras.
Como evitar a propagação de ideias que antes eram proibidas, se a proibição deixou de ser possível?
A resposta é clara: não é mais possível evitar. É preciso aprender a enfrentar.
Do Acesso ao Excesso: O Novo Desafio
Se antes o desafio era obter informação, hoje é filtrar.
O excesso gera superficialidade, e o conteúdo viralizado, pensado para entreter, ocupa o lugar do conhecimento que forma e fortalece.
O cristão contemporâneo não pode depender de antigas táticas de isolamento, porque o mundo digital é, por natureza, omnipresente e inevitável. A tarefa agora é discernir, compreender, avaliar e dialogar.
A Igreja, portanto, precisa reconhecer essa mudança e abandonar a postura reativa baseada na proibição. Deve, em vez disso, cultivar uma postura ativa, formativa e intelectual, preparando seus fiéis para navegar na torrente informacional do século XXI.
Conclusão
A Igreja não errou por proibir, em seu tempo, aquilo que julgava nocivo. Errou — e ainda erra — quando deixa de explicar, formar e preparar seus fiéis para lidar com as ideias que inevitavelmente encontrarão.
O mundo mudou. A informação mudou. A maneira como as pessoas pensam mudou.
E se a Igreja quiser cumprir sua missão neste novo contexto, precisará ir além do “não pode” — e adotar o compromisso de ensinar o porquê, o como, e o para quê.
Somente assim será capaz de enfrentar, com sabedoria, a nova realidade da era digital.
2 respostas para “A IGREJA ERROU”
Boa tarde!
É muito bom essa reflexão é cabo de ler!
Concordo que a igreja não falava e não tratou diversas assuntos que permeia a sociedade nos dias de hoje. Por exemplo eu nunca ouvi falar de marxismo cultural na igreja nem sabia o que significava!
Verdade!