Introdução
O marxismo e o feminismo apresentam interconexões relevantes, sobretudo quando analisados a partir de suas raízes filosóficas, de suas concepções sobre a família, o Estado e a moral, e de seus efeitos políticos ao longo do século XX.
Este artigo propõe examinar os pontos de convergência entre o pensamento de Karl Marx e Friedrich Engels e o feminismo representado por Margaret Sanger, sem diluir as especificidades de cada autora ou corrente, mas evidenciando seus vínculos ideológicos.
Iluminismo, Rousseau e a gênese do vitimismo moderno
Ambas as correntes beberam na fonte iluminista e nasceram das entranhas de filósofos consagrados. Jean-Jacques Rousseau, expoente do Iluminismo, sintetizou sua visão antropológica na célebre frase: “O homem nasce bom, a sociedade o corrompe.” Tal concepção fundamenta uma das marcas mais persistentes do pensamento moderno: o vitimismo estrutural.
A adesão a Rousseau implica enxergar o indivíduo como essencialmente indefeso diante da sociedade e permanentemente condicionado por estruturas opressoras, deslocando a responsabilidade moral do sujeito para o ambiente social.
Marx, Engels e o materialismo histórico
Karl Marx introduziu o materialismo histórico-dialético, reduzindo a existência humana à dimensão material e rejeitando qualquer transcendência divina. Ao adaptar a dialética hegeliana, Marx apresentou a história como um processo movido por forças antagônicas, sintetizadas na ideia de luta de classes.
Marx e Engels empenharam-se em convencer o trabalhador de que era estruturalmente oprimido pela classe burguesa. A conscientização dessa condição, segundo eles, levaria inevitavelmente à revolução armada, à tomada dos meios de produção e à implantação do comunismo.
A família como obstáculo revolucionário
Nesse contexto, a família tradicional passou a ser vista como inimiga da revolução proletária. Para Marx e Engels, ela reproduziria no interior do lar as relações de dominação do capitalismo, oprimindo mulheres e crianças sob a lógica do patriarcado.
Essa concepção tornou-se um dos pilares do feminismo nascente, que passou a associar a família tradicional à opressão estrutural feminina.
Protofeminismo e a centralidade da educação
Mary Wollstonecraft, considerada uma protofeminista, defendeu em Reivindicação dos Direitos da Mulher que a educação era o principal meio de aperfeiçoamento feminino. Para ela, mulheres educadas seriam melhores mães, esposas e cidadãs, deslocando o eixo moral da religião para a razão iluminista.
As ondas do feminismo e a ruptura com a ciência
O feminismo de primeira onda concentrou-se no sufrágio feminino; o de segunda onda avançou para a liberdade sexual e a politização da reprodução. Nesse processo, relativizou-se o apreço iluminista pela ciência, especialmente quando esta contrariava novas construções ideológicas.
Simone de Beauvoir sintetizou essa ruptura ao afirmar em O Segundo Sexo: “Não se nasce mulher, torna-se.” Com isso, negou a determinação biológica do sexo em favor de uma construção social imposta por consenso ideológico.
Margaret Sanger e a eugenia feminista
Margaret Sanger, feminista da primeira onda, afastou-se do sufrágio como pauta central e concentrou-se na liberdade sexual feminina, no controle estatal da reprodução e na eugenia social. Para ela, a maternidade representava uma desvantagem que deveria ser regulada.
Sua frase mais conhecida resume essa visão: “Menos filhos dos inaptos, mais filhos dos aptos.” Doentes, pobres e considerados degenerados não deveriam se reproduzir livremente. Essa perspectiva a colocou em conflito direto com movimentos conservadores e religiosos.
Sanger tornou-se um exemplo concreto de como o progressismo pode ocultar graves desvios éticos sob o discurso de proteção da mulher.
Convergências ideológicas entre Sanger, Marx e Engels
Embora não seja tecnicamente correto classificar Sanger como marxista, sua visão converge substancialmente com Marx e Engels. Todos viam a família tradicional como um entrave ideológico: para Marx, a expressão doméstica do capitalismo; para Sanger, a fonte da moral patriarcal repressiva.
Outro ponto comum é a confiança na intervenção estatal como instrumento de libertação. Marx e Engels defendiam um Estado organizador na fase inicial do comunismo; Sanger acreditava que o Estado deveria controlar a natalidade para impedir a reprodução dos indesejados.
A religião cristã figurava como o principal obstáculo a esses projetos, razão pela qual foi sistematicamente combatida.
Aborto, controle populacional e engenharia social
Tanto no marxismo aplicado — como no caso da União Soviética — quanto no feminismo de Sanger, o aborto foi tratado como prática legítima e necessária para o aperfeiçoamento social. O controle de natalidade tornou-se instrumento de engenharia populacional.
Considerações finais
O progressismo contemporâneo tem suas raízes no Iluminismo, passa por Rousseau, Marx, Engels e Margaret Sanger, e é posteriormente reformulado por pensadores como Gramsci, a Escola de Frankfurt, Simone de Beauvoir, Michel Foucault e Judith Butler.
Progredir é um desejo legítimo, desde que não se destrua os pilares que sustentam a civilização. A aplicação rigorosa do marxismo produziu miséria e morte em larga escala. As ideias de Sanger, se plenamente executadas, teriam eliminado populações inteiras consideradas indesejáveis.
Um progressismo que rompe com o passado e ameaça o futuro não é progresso, mas regressismo: anomia, colapso social e autofagia civilizacional.