Repete-se com frequência no debate político brasileiro a ideia de que “a direita é dividida e a esquerda é unida”. A frase parece inteligente mas não resiste ao menor exame histórico. Trata-se menos de uma verdade e mais de uma técnica de constrangimento discursivo: quem diverge deve sentir-se culpado por “dividir o campo”.
A Esquerda é Historicamente Dividida
O problema é simples — a esquerda nunca foi unida em nenhum lugar do mundo. Nem na teoria, muito menos na prática
O maior ícone do pensamento socialista, Karl Marx, formulou o chamado socialismo científico justamente porque discordava dos socialistas utópicos. A divergência, portanto, não é um desvio da esquerda — é a razão de sua origem.
Quando suas ideias foram aplicadas pela primeira vez, na Revolução Russa, havia dois grandes grupos socialistas: bolcheviques e mencheviques. Uns defendiam a revolução imediata; outros, uma transição gradual. O resultado da disputa não foi consenso — foi expurgo. Os vencedores eliminaram os vencidos.
Unidade pretendida nunca aconteceu e, quando tentada, se deu através da eliminação do divergente.
Após a morte de Lenin, o partido voltou a se dividir: Stalin e Trotsky disputaram o poder. Stalin venceu. Trotsky foi exilado. Depois, assassinado com um golpe de picareta desferido na cabeça por um agente de Stalin.
O partido tornou-se “unido” por silêncio forçado, não por concordância.
A mesma lógica se repete onde regimes socialistas se consolidaram. China, Coreia do Norte, Cuba — todos apresentam a tão celebrada “unidade política”.
Se ela existe é na ponta do fuzil.
A Esquerda Brasileira
No Brasil, o mito também não se sustenta. O primeiro partido comunista, o PCB, nasceu em 1922. Hoje contamos com cinco partidos que daí derivaram, além dos que já se unirão em federações. Ainda existem movimentos políticos que não são partidos que, por não concordarem entre si, seguem caminho próprio.
O PSOL nasceu de dissidência do PT. O PT tem entre seus fundadores egressos do PCB, PSTU e movimentos de guerrilha armado como MR8.
Se fossem realmente unidos, por que tantos partidos?
A fragmentação é inerente à política. O que muda é a forma como cada campo lida com ela. Enquanto regimes autoritários resolvem divergências pelo expurgo, as sociedades democráticas as resolvem pelo debate.
O Silêncio Forçado – O Espiral do Silêncio
É aqui que entra um ponto central: quando alguém afirma que “a direita precisa falar com uma só voz”, frequentemente está — consciente ou não — aplicando a chamada Espiral do Silêncio. A técnica consiste em constranger o divergente até que ele se cale por medo de isolamento.
Não é unidade. É intimidação!
Não é coisa de cristão ou conservador, é coisa de comunista!
Ser de direita significa defender a liberdade de expressão garantindo a liberdade de discordar — inclusive entre aliados. Caso contrário, troca-se apenas o rótulo do autoritarismo.
Eleitor Não é Torcedor
Há ainda um efeito colateral perigoso: transformar eleitores em torcedores. Políticos adoram torcidas organizadas. Torcedor não questiona. Não cobra. Não fiscaliza. Isso é tudo que um político mal intencionado quer!
O máximo que um político merece do cidadão é desconfiança e nada mais!
Democracia exige maturidade. É possível compartilhar fundamentos e divergir em estratégias. Pensar diferente não é inimizade. É sinal de saúde intelectual.
O futuro de qualquer campo político não depende de unanimidade, mas sim, da capacidade de crescer divergindo.
E isso — ao contrário da falsa unidade — é o verdadeiro sinal de força.