Poucos assuntos conseguem perfurar a barreira do tempo e do espaço como o estudo da ética e os desafios contemporâneos
Na busca por compreender quais princípios deveriam reger sua conduta e ordenar a vida em sociedade passamos a refletir sobre si mesmo, .
Após o período mítico do Olimpo, os filósofos clássicos se debruçaram sobre a ética com um propósito claro: elevar o homem à busca das virtudes metafísicas que, por meio do aperfeiçoamento individual, refinariam a vida coletiva.
A Ética sob o Cristianismo Medieval
Durante a Idade Média, o cristianismo assumiu o protagonismo na regulamentação da vida social. A moral passou a ser fundamentada em verdades absolutas extraídas das Escrituras, e as normas éticas derivavam da revelação bíblica.
A forte influência do pensamento cristão — e o peso das normas éticas dele advindas — confrontou homens que não criam na divindade de Cristo e, sobretudo, aqueles que entendiam que o fato de Ele ter existido como homem não lhe conferiria o status de única fonte de moral e ética com efeitos erga omnes.
Além disso, os muitos erros praticados pela Igreja Católica após sua aliança promíscua com Roma alimentaram uma crescente aversão aos padrões éticos então estabelecidos. A crítica à instituição passou, pouco a pouco, a contaminar também a crítica ao fundamento transcendente da moral.
Humanismo, Iluminismo e a Exaltação da Razão
O humanismo deslocou o protagonismo de Deus para o homem. Em seguida, o Iluminismo tratou a fé como retrógrada e destituída de prestígio, conferindo à razão a primazia nas decisões humanas e elevando-a à condição de fonte da ética e da moral.
A modernidade acreditou que a ética nascida do próprio homem seria capaz de domá-lo completamente. Contudo, a falibilidade humana triunfou sobre essa filosofia utópica.
Os séculos XIX e XX enterraram, de forma dramática, a presunçosa vontade de prever e controlar o comportamento humano a partir dele mesmo. Tiranias e Grandes Guerras Mundiais extremamente violentas colocaram em xeque a capacidade do homem de viver bem em sociedade sem descambar para a barbárie.
A razão, que havia sido elevada a fonte suprema da moralidade, passou a ser alvo de duras críticas e constantes questionamentos.
A Virada Pós-Moderna
A pós-modernidade emerge quando a busca pelo fundamento seguro da modernidade dá lugar à consciência de que esse fundamento seguro não existe. Rompe-se tanto com as possibilidades metafísicas da ética clássica e medieval quanto com a confiança na razão absoluta moderna.
A ética contemporânea parte da premissa de que nada é absoluto. Admite-se a pluralidade e a diferença como ponto de partida, e as regras éticas passam a refletir essa fragmentação.
Foi necessário abdicar de sistemas éticos fechados — como pensou Immanuel Kant com seu Imperativo Categórico — para adotar abordagens fragmentadas, setorizadas, diluídas em múltiplas áreas da vida.
Sai a moral como lei universal; entra a moral construída por meio de diálogos constantes e observação contínua. Sai a ética como fundamento metafísico; entram debates que buscam consensos provisórios, como previu Jürgen Habermas.
Se antes a metafísica teísta ainda resistia em temas como natureza e universo, a contemporaneidade tornou-se profundamente resistente ao transcendente. A ética foi radicalmente humanizada. Cultura, contexto, linguagem e história assumiram um protagonismo inédito.
Convergências Entre Modernidade e Contemporaneidade
Apesar das divergências, moderna e contemporânea não vivem apenas de antagonismos.
Ambas buscam fundamentar racionalmente a ética, ainda que por caminhos distintos. Compartilham também a preocupação com direitos humanos, dignidade da pessoa humana e igualdade.
Outro ponto significativo é a centralidade do indivíduo. Seja na condição de homem legislador na modernidade kantiana, seja na liberdade radical defendida por Jean-Paul Sartre, o indivíduo permanece no centro da reflexão ética — ainda que, no primeiro caso, sob a razão universal, e no segundo, sob crítica cultural e histórica.
Um Movimento Cíclico
Ao observarmos essa evolução, percebemos um movimento quase cíclico.
Quanto mais mergulhamos na busca por regras que nos aperfeiçoem a partir de nós mesmos, mais percebemos que não somos tão confiáveis assim — e isso abre espaço para a busca de algo que nos pareça mais seguro.
A contemporaneidade aprofunda a fragmentação. Conceitos éticos tornam-se líquidos e, com o tempo, vão se esmaecendo até quase desaparecer.
Zygmunt Bauman descreveu essa condição como “modernidade líquida”: uma sociedade fluida, instável, informe. Matthew D’Ancona analisou os tempos da pós-verdade, nos quais a relativização extrema dificulta encontrar qualquer destroço firme no navio que chamamos de sociedade ocidental.
Diante disso, surge uma inquietação legítima: será que fomos feitos para a fluidez permanente? Todo navegante, ainda que experiente, deseja ao final da jornada aportar em terra firme, sentir o chão sob os pés e descansar.
O Desafio Ético do Nosso Tempo
Vivemos um tempo paradoxal: mais informação, porém menos sabedoria; mais conexão, porém mais isolamento; mais recursos tecnológicos, porém menos habilidades humanas básicas.
Vemos pais que desejam educar sem estabelecer limites. Filhos menos obedientes, menos resistentes, menos resilientes.
Uma geração cada vez mais imersa em jogos e vidas virtuais que se assemelham mais a uma hipnose coletiva do que a um verdadeiro progresso.
Não creio que será bom para a sociedade um niilismo ético que nos conduza à ausência de referenciais sólidos.
Pode ser que nem todo progresso seja bem-vindo; que a ausência de regras não produza liberdade, mas desorientação; que a verdadeira liberdade não consista em fazer o que se quer, mas em viver segundo aquilo que é verdadeiro e bom.
Quanto mais o homem busca as respostas exclusivamente em si mesmo, mais percebe que não encontra fundamento suficiente. Talvez, ao final desse ciclo, acabemos por nos submeter novamente a algo já validado no espaço-tempo, algo que tenha se mostrado seguro e capaz de sustentar a vida humana com dignidade.
O grande desafio da contemporaneidade é perguntar, com honestidade: para onde estamos indo?
Enquanto a tecnologia nos empurra para o futuro parece que estamos retrocedendo nas relações interpessoais, inteligência emocional e nas habilidades básicas para a vida cotidiana.
Acredito que na busca do fragmentado e liquido encontraremos mais sólidos fundamentos.