OS FINS NÃO JUSTIFICAM OS MEIOS – A ÉTICA CRISTÃ


Você sabe quem foi Nicolau Maquiavel?

Mesmo que o nome não lhe seja familiar, suas ideias certamente são. Muitos, inclusive, já repetiram — consciente ou inconscientemente — um pensamento dele que acabou se tornando um conhecido dito popular: “os fins justificam os meios”. Como entender esta ideia à luz da Ética Cristã?

A frase não é de Maquiavel. Sua origem remonta ao poeta latino Ovídio, na obra Heroides. Lá ele diz: 

Esta frase resume muito bem a ideia trazida em um trecho inserido sua principal obra, O Príncipe:

Quem foi Maquiavel

Nicolau Maquiavel foi um filósofo e diplomata florentino do século XVI, frequentemente considerado o pai da ciência política moderna por ser o primeiro a separar a análise do poder das prescrições morais e religiosas. 

Ele escreveu em um contexto de grande instabilidade política, guerras constantes e disputas entre principados, além de intensa interferência da Igreja Católica na vida política.

Sua principal contribuição foi fazer uma descrição fria de como funcionam as engrenagens ocultas do poder. 

Para Maquiavel, o governante não poderia se guiar pela mesma moral de um cidadão comum; sua ética seria julgada pela eficácia e os resultados gerados para o seu principado.

Maquiavel e a Ética Cristã

Para ele, mais importa para a política o que ela é e não o que deveria ser.

Essa visão é um confronto direto com a moralidade cristã, que propõe valores universais, absolutos e inegociáveis. 

Maquiavel escreve em um ambiente profundamente religioso, mas sua crítica não se dirige apenas à corrupção dos papas, ainda que dê a isto certo protagonismo.

Esta constatação ajudou a descredibilizar a instituição Igreja Católica, mas não somente isso, levou de arrasto o evangelho e seus ensinamentos mais fundamentais.

Esta confusão é recorrente. Aproveitar erros de líderes religiosos, principalmente cristãos, para descredibilizar os ensinamentos que levaram ao padrão moral que criou as democracias mais consistentes do mundo, inclusive no que tange liberdades individuais e dignidade da vida humana.

A verdade cristã, contudo, não se altera pela falha dos homens. O homem se corrompe e cai, enquanto a verdade absoluta de Deus permanece intacta, imutável, inabalável em sua marcha triunfante.

Maquiavel e a contemporaneidade

É incrível como os escritos de Maquiavel são tão atuais.

Quantas figuras políticas você conhece – já eleitos ou candidatos – dispostos a tudo para alcançar ou se manter no poder?

Fazem jus ao título de “maquiavélicos”, ainda que não tenham lido uma linha do que ele escreveu

A sociedade moderna e sua fluidez moral cada vez mais evidente, embalados por certezas fundadas em coisa nenhuma, convencidos por suas próprias suposições e entendidos de que ódio e brigas engajam muito nos canais de comunicação da pós-verdade, se afasta cada vez mais dos marcos da moralidade que a tornariam mais longeva

O cristianismo não negocia

Do ponto de vista cristão, entretanto, a direção a se tomar seria outra.

Ainda que a sociedade relativize valores, a moral cristã não é negociável. Ser cristão é, por definição, andar na contramão do que é considerado normal, eficiente ou aceitável.

“E odiados de todos sereis por causa do meu nome; mas aquele que perseverar até o fim será salvo.” (Mt 10:22)

Jesus nunca prometeu facilidade. Prometeu fidelidade até o fim e vitória, não necessariamente nesta vida, mas na eternidade.

Por isso, para o cristão, os fins não justificam os meios. Se os meios são errados, o resultado final não pode dar certo, sob o ponto de vista moral.

Não é justo enriquecer roubando, mesmo que se dê o “melhor” destino possível para este dinheiro.

Não há um bom motivo para se fazer o que é errado. 

O que diz a Bíblia

As Escrituras condenam o roubo, independentemente do objetivo final (1Co 6:10). 

O mesmo se aplica à mentira, mesmo quando utilizada para evitar sofrimento imediato:

“Não mintais uns aos outros.” (Cl 3:9)

A mentira é uma tentativa retórica de alterar o resultado apesar dos meios. Nunca será justificável ou moralmente aceitável.

Conforta o coração dos homens, mas entristece profundamente a Deus.

O episódio de Saul é emblemático. Ao poupar os despojos dos amalequitas para oferecê-los ao Senhor, ouviu de Samuel:

“É melhor obedecer do que sacrificar.” (1Sm 15:22)

O meio determina sobre o fim.

Veja é o dilema apresentado por Josué:

“Escolhei hoje a quem sirvais.” (Js 24:15)

Servir implica obedecer integralmente. Não existe excludente. Não há neutralidade moral. Se não se serve a Deus, só se poderá servir aos ídolos.

Não servir a nenhum dos dois só é possível com palavras, mas absolutamente insustentável após as primeiras ações. Todos servimos a alguém, inevitavelmente.

Jesus não deixa escapatória:

“Se me amais, guardareis os meus mandamentos.” (Jo 14:15)

A ética cristã não promete ganhos imediatos, mas exige fidelidade incondicional. 

Fazer o certo pode custar reputação, poder ou vantagens materiais, mas ainda assim, é o único caminho possível para alguém que afirma seguir a Cristo.


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