Não. Mas a resposta exige que se separe, com cuidado, o que é fé, o que é análise histórica e o que é juízo político. Esse é o ponto central do debate, e é nele que este texto se apoia.


O erro do anacronismo

Antes de qualquer argumento, é preciso reconhecer um equívoco de método: analisar o passado com as categorias do presente. "Esquerda" e "direita" são termos da Revolução Francesa, do século XVIII, e descrevem arranjos políticos modernos. Jesus viveu na Judeia do primeiro século, sob o Império Romano, e não se encaixa nesse recorte. Projetar sobre ele um rótulo partidário é trair a historicidade do texto.


O argumento do "pobre"

Quem defende que um cristão pode ser de esquerda costuma partir de uma premissa correta: o Evangelho mostra uma preocupação real com os necessitados. Mas a conclusão não se segue automaticamente.


Imagine um cristão de esquerda que finge se importar com o pobre apenas para usá-lo como instrumento de poder pessoal. Ele pode se dizer de esquerda, mas será que, por isso, é um cristão fiel? A resposta é não. Do mesmo modo, cuidar do necessitado é uma exigência da fé cristã, não um atributo exclusivo de uma ideologia.


Também é falsa a ideia de que a direita não se importa com os pobres. Há uma longa tradição conservadora de caridade, assistência e compromisso comunitário, muitas vezes exercida pelas igrejas e pela sociedade civil, e não apenas pelo Estado.


Capitalismo, socialismo e a vida do pobre

Uma pergunta simples ajuda a orientar o debate: qual sistema econômico melhorou de forma mais consistente a vida material dos pobres? A comparação entre países capitalistas e socialistas costuma apontar para os primeiros, especialmente no que diz respeito à redução da pobreza extrema ao longo das últimas décadas.


Isso leva a uma questão de método. A chamada desigualdade social é um indicador útil, mas talvez não seja o mais adequado para avaliar miséria e prosperidade. Por que medir a própria vida pela do outro? Sempre haverá alguém em melhor situação. Uma perspectiva mais justa é perguntar se a vida melhorou em relação ao ponto de partida, em relação ao que recebemos de nossos pais. A comparação constante de todos com todos é, em grande parte, herança do pensamento marxista e de sua ideia de "consciência de classe".


O capitalismo, é verdade, pode acentuar a desigualdade econômica. Mas a esquerda também produz desigualdades, ainda que de outra natureza: cria categorias privilegiadas, define quem pode falar, pensar e agir, e organizar a vida pública em torno de identidades que se contrapõem. Nenhum dos dois modelos está livre de tensões.


O caso brasileiro

No Brasil, o debate ganha contornos concretos. Após mais de duas décadas de governos do PT, o país continua marcado por desigualdades regionais, sobretudo no Nordeste. Pode-se discordar sobre as causas desse quadro, mas é legítimo perguntar se o modelo de governança adotado teve os resultados esperados. Corrupção e gasto público sem controle são temas que não podem ser ignorados nessa avaliação.


A pergunta que realmente importa

Chegamos, então, à questão decisiva: como um cristão deve pensar, com base em princípios bíblicos, sobre sua posição no espectro político?


A pergunta correta não é "qual lado é mais santo", mas sim: os princípios basilares do Evangelho são mais bem recebidos pela esquerda ou pela direita? A resposta exige honestidade intelectual. Nenhum projeto político encarna plenamente o Reino de Deus. Os princípios cristãos, como a dignidade da pessoa humana, a responsabilidade pessoal, a família, a justiça, a caridade e a verdade, devem orientar o juízo político, mas não se reduzem a um partido ou a uma ideologia.


Ficar em cima do muro exige um equilíbrio que nem sempre é possível para quem tem convicções firmes. Por isso, apresento a seguir um quadro com características que costumam aparecer associadas a cada espectro político. Trata-se de tendências predominantes, e não de definições absolutas: há pessoas de esquerda e de direita que não se encaixam em todos os itens, e cada traço deve ser lido dentro do conjunto.


ESQUERDA

DIREITA

Ateísta

Laica

Politicamente fechada

Liberdades individuais

Estado regulador

Livre iniciativa

Liberdade Sexual

Moralidade sexual

Identitarismo

Igualdade e respeito

Violenta

Pacífica

Anti-família

Família

Revolucionária

Conservadora (compromisso passado, presente e futuro)

Aparelha instituições

Fortalece instituições

Abortista

Provida

Liberação do drogas

Antidrogas

Contra a propriedade privada

A favor da propriedade privada

Os fins justificam os meios

Os meios importam


Ao olhar a lista, percebe-se que os traços associados à direita, como responsabilidade pessoal, família, propriedade, instituições fortes e respeito aos meios legítimos, aproximam-se dos princípios de dignidade humana, justiça e caridade defendidos ao longo deste artigo. Assim, a escolha não se resume a um sentimento, mas à pergunta sobre qual dos lados melhor preserva aquilo que o Evangelho ensina sobre a pessoa, a família e o próximo.